Parque Trianon

Breve histórico do Parque Trianon

Inaugurado em 1892, um ano após a abertura da Avenida Paulista, o parque conhecido popularmente como Trianon inicialmente fazia parte de um “complexo cultural” da aristocracia cafeeira da cidade. Até 1953, no mirante onde está situado o MASP hoje, estava o Belvedere Trianon (daí o nome) projetado por Ramos de Azevedo como parte de um clube das classes dominantes. O parque, então, era tido como uma extensão do clube, sediando eventos sociais.

Em 1924, o terreno do parque, pertencente à Joaquim Eugênio de Lima, foi doado à Prefeitura, recebendo em 1931 o nome oficial de Parque Tenente Siqueira Campos (militar e político participante da Revolta Tenentista de 1924).

Tombado pelo CONDEPHAAT e pelo CONPRESP, é divulgado hoje principalmente à luz dessa sua história primeira, a história relacionada à sociabilidade e à intelectualidade das elites, além de seus atributos naturais como única reserva remanescente de mata atlântica da região, com árvores seculares.

Há uma parcela de memória e atmosfera, no entanto, que não é frequentemente evocada hoje. Foi no decorrer das décadas de 1960 e 1970 que o parque começou a ganhar ares e fama misteriosos, quando foi se tornando ponto de prostituição, inclusive noturna (o acesso era livre nesse momento). Entre 1986 e 1989 foi palco de uma série de assassinatos cujas vítimas eram homossexuais clientes dos programas do ponto.

Nesse momento, tal imagem de um lugar perigoso e avesso às boas aparências das elites da região foi amplamente divulgada pelas mídias.

Relevância para a comunidade LGBT+ e sua memorialização

Os acontecimentos que ligam o Parque Trianon à questão LGBT remontam principalmente à década de 1980, quando o parque e seus arredores dos Jardins já compunham um cenário de prostituição masculina.

Sob o véu da epidemia de AIDS, o parque ficou conhecido, ao final da década de 80, como palco de atuação do michê Fortunato Botton Neto, acusado de realizar uma série de assassinatos de seus clientes homossexuais entre 1986 e 1989. O caso chamou a atenção das mídias, atribuindo-se a ele a designação de “Maníaco do Trianon”. Botton foi preso em agosto de 1989, após ampla investigação com poucas evidências, quando confessou alguns dos crimes.

No período em que se deu o processo de investigação, a mídia tratou do caso construindo para o acusado o espectro de “estrela do mal”, um hediondo serial killer, tipicamente frio, cruel, que apresentava prazer em matar e, portanto, de certa forma, desprovido do que se atribui ao caráter humano. A opinião pública clamava por uma solução do caso.

Em seu livro Dias de Ira: Uma História Verídica de Assassinatos Autorizados, o jornalista Roldão Arruda faz uma ampla descrição e análise do caso, apontando para a leitura de que todo esse exaltado painel midiático (que apresentava um ato isolado de um criminoso desequilibrado) contribuiu para um encobrimento do caso como fenômeno social associado ao preconceito e à agressão contra gays.

Dessa forma, o Parque Trianon, hoje, constitui um lugar importante como potencial de memorialização LGBT, de modo a evidenciar e ressignificar esse episódio e demarcar a presença incessante da comunidade na região.

Em relação ao estado atual de memorialização do Parque Trianon, deve-se diferenciar os processos e ações existentes em duas frentes: uma referente à sua história fundante, que compreende o período desde o final do século XIX até meados da década de 1970; e outra relativa à sua história mais recente, que tem a memorialização LGBT como tema principal.

A primeira frente inclui principalmente a memorialização pública através dos órgãos oficiais do Estado. O Parque Trianon foi tombado pelo CONDEPHAAT em 1982 e pelo CONPRESP em 1991. Em 2013 houve alterações em sua área envoltória de preservação.

A sinalização no parque é referente ao seu valor ambiental, principalmente.

Atualmente, a memorialização que diz respeito ao lugar como importante ponto da sociabilidade LGBT+, da prostituição masculina e como palco da série de assassinados do final da década de 1980 está restrita a poucas páginas da internet e ao livro de Roldão Arruda.

Na internet, no entanto, o que se encontra é a exposição do caso dos assassinatos de modo a reforçar o caráter doentio do assassino, sem muita referência à questão LGBT+ como questão social. Essa abordagem representa uma linha contínua em relação ao discurso midiático da época dos crimes.

Em notícia de agosto de 1989, do jornal O Estado de São Paulo, quando o michê Fortunato Botton Neto foi preso, vê-se a maneira como foi – e ainda é, em amplo contexto – tratado o caso, como um ato isolado.

Em contramão desse entendimento, está o livro, já citado, Dias de Ira: Uma História Verídica de Assassinatos Autorizados, do jornalista Roldão Arruda. A obra configura-se como veículo importante para a memorialização LGBT do Parque Trianon.

Frente a esse escasso cenário de memorialização, vê-se a necessidade de novas ações para reforçar e inserir o lugar como parte do quadro da memória e luta LGBT da cidade. O Parque Trianon representa uma potencialidade nesse sentido também por sua localização, estando na Avenida Paulista, local importante para a luta e sociabilidade LGBT.

[Texto de Fabiana Freier]

Faça o download da sinalização para esse lugar de memória aqui!

Referências:

http://www.cidadedesaopaulo.com/sp/o-que-visitar/atrativos/pontos-turisticos/4083-parque-trianon

Resolução 05/91 CONPRESP, disponível em http://www.infopatrimonio.org/wp-content/uploads/2015/03/Resolu%C3%A7%C3%A3o-05.pdf