Praça Júlio de Mesquita

Breve histórico da Praça Júlio de Mesquita

A praça Júlio de Mesquita, localizada no bairro de Santa Efigênia na cidade de São Paulo, está situada na convergência da Avenida São João, Alameda Barão de Limeira e Rua Vitória . Foi inaugurada no início do século XX e nomeada como Praça Vitória. Em 1927 a praça recebeu a primeira obra de arte pública de autoria de uma mulher em São Paulo, uma fonte monumental em estilo art nouveau concebida pela escultora Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto. No mesmo ano a Praça Vitória teve seu nome alterado para Praça Júlio de Mesquita, em homenagem ao jornalista e político Júlio de Mesquita, proprietário do jornal “O Estado de São Paulo”, que faleceu no mesmo ano.

Um dos únicos edifícios do entorno da praça, existente no período de inauguração, a resistir às demolições e a verticalização da região, é o Palacete Lugano. O antigo Urca Hotel é hoje um edifício de moradia popular. A praça é caracterizada por estar em um local degradado e abandonado pelo poder público. A Fonte Monumental foi deteriorada e seus ornamentos em bronze furtados. Em 2013 a obra foi restaurada.

 

Relevância para a comunidade LGBT+ e sua memorialização

A importância da Praça Júlio de Mesquita para a memória LGBT está vinculada a seus frequentadores principais, prostitutas e travestis, e aos acontecimentos decorrentes dessa apropriação do espaço público. Na década de 1980 o delegado José Wilson Richetti foi protagonista da repressão contra a comunidade negra e LGBT, e contra as prostitutas. Ele foi responsável pela prisão de centenas de pessoas, com a justificativa de estar “limpando a cidade”.

Em 06 de junho de 1980, prostitutas e travestis fizeram uma manifestação na praça Júlio de Mesquita contra a violação de seus direitos de ir e vir e a violência policial ministrada por Richetti.

Em 13 de Junho 1980 um grande ato LGBT partiu das escadarias do Teatro Municipal, na República. O pivô da mobilização foram as mortes de Maria Marciana da Silva e Olivaldo de Oliveira. O dia ficou conhecido como Dia Nacional de Luta Homossexual. O ato passou pela Praça Júlio de Mesquita e foi recebido e abraçado pelas prostitutas e travestis das janelas do Edifício Século XX. Elas foram aplaudidas pela passeata. Durante o ato foi lido um manifesto contra a repressão policial:

“CARTA ABERTA À POPULAÇÃO

Hoje estamos dando uma resposta concreta a essa onda de violência desencadeada pelos responsáveis da segurança pública: Um secretário de Segurança, um diretor do Depto. de polícia e um delegado vêem aterrorizando prostitutas, homossexuais, travestis, negros e desempregados com prisões arbitrárias, espancando e até assassinando-os.

Maria Marciana da Silva e Olivaldo de Oliveira foram as primeiras vítimas fatais da nova onda de repressão. Maria uma jovem de 33 foi encontrada morta na estrada de Perus, com o crânio esmagado. O crime que ela cometeu: estar à noite na Praça Júlio Mesquita. Quanto à Olivando pesa o fato de ser negro. Deram-lhe um tiro na nuca. Uma outra jovem, num ato de desespero tenta o suicídio. Por isso estamos aqui protestando contra a repressão policial e exigimos a imediata destituição do Sr. José Wilson Richetti, o responsável direto pela barbárie. Exigimos também a abertura de uma sindicância para apurar as responsabilidades.

Conclamamos toda a população a se juntar a nós e acabar de uma vez por todas com o terrorismo oficial.

A desculpa que esse delegado apresenta é que está limpando a cidade dos marginais e que tem o respaldo dos comerciantes e moradores. No entanto, de 1500 pessoas detidas na primeira semana, apenas 12 (0,8%) foram indiciadas. Nos parece que para acabar com os assaltos o delegado acha melhor prender todas as vítimas. Numa cidade em que existe mais de 1 milhão de desempregados é, no mínimo, absurdo prender pessoas que não possuem carteira de trabalho assinada.

CONTRA A VIOLÊNCIA POLICIAL

CONTRA O DESEMPREGO

CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL E SEXUAL

PELO DIREITO DE IR E VIR

GRUPOS: SOMOS, Movimento Negro Unificado, Ação Lésbica-Feminista,

Núcleo de Defesa à Prostituta, Associação de Mulheres, Grupo Feminino 8

de Março, Convergência Socialista, Grupo de Mulheres do Jornal O

Trabalho, Departamento Feminino da USP – DCE Livre, Eros, Libertos, Ação Homossexualista e Nós Mulheres.”

 

[Texto de Amanda Limone]

Faça o download da sinalização para esse lugar de memória aqui!

Referências:

Acesso: 13/04/2018

http://www.saopauloantiga.com.br/praca-julio-mesquita/
http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomoi/downloads/I_Tomo_Parte_2_Ditadura-e-Homossexualidades-Iniciativas-da-Comissao-da-Verdade-do-Estado-de-Sao-Paulo-Rubens-Paiva.pdf
data de acesso: 13/04/2018
Acesso 20/04/2018
https://www.pstu.org.br/1980-surge-o-movimento-homossexual-brasileiro/